resenha

As Meninas – Lygia Fagundes Telles

Eu nunca havia lido Lygia Fagundes Telles e recomendo à você nunca a leu, começar por esse. Gente, que livro genial!

Eu escolhi ler esse livro para o mês de março (mês da mulher) por dois motivos: a indicação da Lygia ao Prêmio Nobel de Literatura, e minha amiga Bruna. Bruna me falou tão bem desse livro, de como tinha sido uma experiência única que me encantou, apesar d’eu desconfiar de exaltações a qualquer coisa – apesar de, também, as fazer – mas confiei em Bruna.

Então, vamos ao livro. É um romance, não de formação, mas de experiências, de crescimento. Conta a história de três meninas, universitárias em São Paulo durante o período da Ditadura Militar. O livro é narrado por quatro pessoas: as três moças – Lia de Melo Schultz, Lorena e Ana Clara – e um narrador observador que apenas aparece para amarrar uns pormenores narrativos. Porém a narrativa é em fluxo de pensamento, e não é um fluxo à lá Virginia Woolf não, é algo diferente, à lá Lygia Fagundes mesmo! É tão sucinto e tão cheio de armadilhas que se tem que prestar muita atenção no começo, mas depois que nos apegamos as donas desses pensamentos, somos fisgados, e fica fácil de acompanhar.

Por ser fluxo de pensamento, o leitor se vê exposto a tudo que essas meninas pensam, a como elas veem o mundo ao seu redor. Lygia revoluciona botando na boca de mulheres a narração de um período tão conturbado na nossa história, e melhor, mulheres com diferentes classes sociais, se formando ainda como indivíduos e descobrindo quem elas serão dali para frente.

É um livro que te faz pensar, com o qual você vai se identificar rapidamente. A Lia, também chamada de Lião, é minha personagem preferida desse livro. Ela é uma comunista que quer mudar o país, mas se vê num dilema de também querer estar ao lado do seu namorado, Miguel, que está preso. Ela tem reflexões incríveis e é talvez a mais firme e sensata entre as três. As discussões que ela tem com os mais velhos durante o livro são de arrepiar, o modo como ela fala da vida, de sexualidade, principalmente sexualidade, do governo, da sua militância, e quando ela divaga sobre as outras duas meninas… É de passar horas refletindo.

“(…) já é tão difícil crescer, ser amado por aquele que a gente ama. E tem que vir alguém determinar o sexo do amor.”

Lorena representa a classe mais alta do livro, os famosos burgueses alienados. E o pior é que ela tem até uma noção do que acontece no país mas ESCOLHE se abster dos problemas para pensar nos seus. Ela é uma menina criada em berço de ouro com uma tragédia de família (e atenção para essa tragédia) que se importa mais com os problemas dela do que com o dos outros, contudo, ao mesmo tempo, ela é quem está sempre lá para apoiar e centrar as outras garotas. É ela quem empresta dinheiro, ouve os problemas, oferece um chá quente (mas a água não pode ferver) e um bom banho. Lorena vive no mundo da lua, esperando durante o livro todo a ligação de uma paixão platônica. Um homem casado e com filhos. Apenas em seu quarto vemos imagens das meninas juntas, conversando, fora de casa, nunca.

Ana Clara, apelidada de Ana Turva, é uma jovem linda, beleza de modelo que é viciada em drogas. Passou por muitas barbaridades quando criança, foi abusada, viu por vezes a mãe também ser abusada, pelos inúmeros homens que passaram por sua casa. Infelizmente, ela reflete isso em sua vida conturbada ao estar, diz ela, noiva de um homem rico de quem só ouvimos falar mas nunca vemos, e estar apaixonada por seu traficante Max. Os capítulos de Ana Turva são bem difíceis de ser lidos, e me lembraram bastante dos livros do William S. Burroughs (meu beatnik favorito) que escreve fluidamente enquanto ele e seus personagens estão afetados por drogas pesadas. São capítulos um tanto desconexos mas que não deixam de fazer sentido. Comentei com essa minha amiga Bruna que os capítulos de Ana são como a música “Águas de Março”, onde existem palavras soltas e que só fazem sentido no final quando a ideia é fechada.

Eu não posso falar muito do livro sem dar spoilers, mas é uma leitura que vale mais do que a pena! É visceral, triste, reflexivo, vai te fazer pensar, vai te fazer parar para analisar como você está levando ou levou a sua vida. Vai fazer você repensar suas atitudes. Um presente inesperado, que ainda hei de reler durante toda minha vida.


Não sei se vocês conhecem, mas a Tatiana Feltrin leu este livro para o mês de Março, também, e fez um vídeo ótimo sobre para quem quiser conferir, e confira porque ela é minha diva.

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3 comentários em “As Meninas – Lygia Fagundes Telles

  1. Gente, eu li esse livro há tanto tempo (pelas minhas contas uns 15 anos!) que não me lembro de nada!! Que horror, né… mesmo não lembrando, adorei ver seu texto e (tentar) relembrar algumas coisas. A Lygia Fagundes Telles é sensacional! Não sei se você já ouviu, mas para mim é uma verdadeira preciosidade ela mesma falando dois contos sensacionais “As formigas” e “A Estrutura da Bolha de Sabão”, no Instituto Moreira Salles, veja -> http://www.radiobatuta.com.br/Episodes/view/9
    Beijos!!
    http://1pedranocaminho.wordpress.com

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