Que horas ela volta? (2015)

O filme conta a historia de Val (Regina Casé) que trabalhando como faxineira em São Paulo ajuda sua filha Jessica (Camila Márdila), quem ela não vê há 10 anos, lá em Pernambuco. Um dia Jessica liga pra mãe dizendo que quer ir à São Paulo para poder prestar vestibular para Arquitetura, mas o que ela não contava era que Val morava com os patrões e consequentemente ela teria de ficar lá também.

Esse cenário de filha de empregada tendo que morar junto com os patrões põe em questão vários valores sociais e problematiza as tais regras de decoro e de comportamento que todos temos enraizadas que, porém não são verbalizadas.

O filme realmente te dá bons tapas na cara (como diria Jout Jout), acontece que no começo do filme você se pega pensando exatamente como a Val e como a patroa dela, a Bárbara (êta mulherzinha nojenta), e quando você percebe o quão escroto você esta sendo seu mundo cai e você percebe que não é só nessa situação que você pensa assim, você pensa assim O TEMPO TODO. Essa parada de regra não verbalizada está sempre presente nas nossas vidas: você julga o carinha com cara estranha do ônibus e pensa que ele vai te assaltar, você julga a menina com short curto a chamando de piranha, você sai julgando a torto e a direito sem pensar no porque e PÁH, vem a Jessica e te da um tapa!

Jessica ardilosa

Bem feito, tava precisando de umas coisas dessas.

Agora presta atenção, e se liga na sacada genial da diretora. Para ilustrar essa divisão de classes as cenas do filme todo (ou quase todo) são divididas, geralmente por portas. Na maioria das cenas da Val na cozinha, ao fundo, na sala de jantar, vemos os patrões e percebe-se nitidamente a divisão espacial entre Val e eles, como se as portas fossem as barreiras físicas dessa hierarquização, quase como se elas transformassem o invisível em concreto.  E quando Jessica aparece ela quebra esses espaços e essas barreiras, ela faz do espaço dos “ricos” o dela assim como o da mãe. Por vezes esta no espaço da mãe, no mesmo plano que ela, e por outras no espaço dos patrões dividida da Val.

Acontece que antes da Jessica, mas sem a gente perceber, Fabinho (Michel Joelsas de “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”) já tinha quebrado esse equilíbrio. Val é como uma mãe pra ele,é a que estava presente quando os pais não estavam (não é à toa que lá fora o filme tem nome de “A segunda mãe”) e por mais de uma vez ele demonstra amor por Val. Ela entra em seu quarto, senta na cama, o beija, faz carinho e ele também entra no quarto da Val (da empregada!) e dorme com ela, sem medo de ser julgado porque pra ele talvez Val não seja muito diferente, e seja até mais que a mãe.

E já que estamos falando de Fabinho esse é outro aspecto forte que o filme aborda: ele fala de pais ausentes, de filhos que foram criados por outros, de pais que sustentam e acreditam que por isso estão criando, de pais negligentes que esquecem o carinho e o amor e impõem regras e expectativas na frente da relação com seus filhos. Quando vemos Fabinho dizer “eu te amo” ele está falando com Val não com a mãe ou com o pai. Em um momento até a mãe o critica por isso e argumenta que só a Val pode abraça-lo, e ele responde “ela me acha inteligente”. No fundo ele só quer ser notado, assim como Jessica, que foi criada por outra mulher e quando revê a mãe quer que ela a note, que veja o quão inteligente ela é, e quando Val falha Jessica se liga ao pai de Fabinho por atenção.

Fabinho gracinha!

Levando tudo isso em conta o filme conta com Regina Casé sendo ótima atriz como sempre (e pra quem duvida disso veja “Eu, Tu, Eles”), Michel Joelsas sendo um fofo, Camila Márdila que eu não conhecia mas fez um ótimo trabalho, e claro Anna Muylaert que não é muito conhecida por seus trabalhos como diretora mas que é ótima roteirista (inclusive foi roteirista de “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” que tem um dos roteiros mais sensíveis e bonitos do cinema brasileiro que eu já vi).

Resumindo, porque o filme é bom? Por que além do filme criticar nossa relação em sociedade e todos esses lugares comuns, e como devemos nos portar e quando nos devemos “botar no nosso lugar”, o filme também faz reflexões sobre outros aspectos que são comuns não importa o tipo de família que você tenha. Vai te fazer pensar e repensar caso você o assista mais de uma vez e talvez rever seus comportamentos.

DICA: Se você gostou/gostar de “Que Horas ela Volta?” veja “Casa Grande”, vai ser bom pra tu. Mais na frente escrevo sobre ele aqui.

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